quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Bodas de Papel

Os dias passaram em branco não só porque você se afastava, eu tinha parado de escrever as partes em que eu sonhava. Não fazia mais sentido manter a esperança nesse mar. Para compensar escrevi pessoas e histórias inventadas nas folhas vazias. Você sumiu aos poucos e a cada momento meus movimentos tornavam-se mais fracos. Ouvia incrédula sua explicação, ela não importa mais. Você não estava lá. Fui levada pela maré e fiquei de braços abertos com apenas meu rosto, pés e mãos sentindo o vento que me empurrava. Deixei. Antes nadava em direção ao nada torcendo com todas minhas forças para que encontrasse terra firme, nunca cheguei a vê-la. Mesmo ao léu tentava proteger aquele pedaço de papel que caberia para hoje. Só porque era um dia especial e ainda existia uma pontinha de qualquer coisa nele. Passei muitas horas assim, aproveitei para tentar evolver meu auto conhecimento que parecia mal desenvolvido. Eu sabia o que era para ser feito, apenas não conseguia, era tão simples. Tinha muito barulho vindo de todos os lados enquanto dentro de mim estava mudo, o que tornava minhas respostas robóticas e enferrujadas. Fechei os olhos, senti o sol tocando meu rosto delicadamente e passei a me concentrar nisso. Quando finalmente voltei à realidade, já tinha me perdido no tempo e as estrelas estavam me olhando. Acabei deixando o papel cair ao mar, peguei-o de volta, inteiro molhado e guardei. Cuidei dele, criei explicações para aquele pedaço branco, tentando me convencer. Passado alguns meses o vi de novo perdido entre tantos outros, uns com apenas meias palavras, outros com sonhos decaídos e mais alguns iguais a ele. Juntei todos, estava chovendo, e joguei-os no mar. Afundaram rápido, foram levados e deixaram poucos vestígios.