Os dias passaram em branco não só porque você se
afastava, eu tinha parado de escrever as partes em que eu sonhava. Não fazia
mais sentido manter a esperança nesse mar. Para compensar escrevi pessoas e
histórias inventadas nas folhas vazias. Você sumiu aos poucos e a cada momento
meus movimentos tornavam-se mais fracos. Ouvia incrédula sua explicação, ela
não importa mais. Você não estava lá. Fui levada pela maré e fiquei de braços
abertos com apenas meu rosto, pés e mãos sentindo o vento que me empurrava.
Deixei. Antes nadava em direção ao nada torcendo com todas minhas forças para
que encontrasse terra firme, nunca cheguei a vê-la. Mesmo ao léu tentava
proteger aquele pedaço de papel que caberia para hoje. Só porque era um dia
especial e ainda existia uma pontinha de qualquer coisa nele. Passei muitas
horas assim, aproveitei para tentar evolver meu auto conhecimento que parecia
mal desenvolvido. Eu sabia o que era para ser feito, apenas não conseguia, era
tão simples. Tinha muito barulho vindo de todos os lados enquanto dentro de mim
estava mudo, o que tornava minhas respostas robóticas e enferrujadas. Fechei os
olhos, senti o sol tocando meu rosto delicadamente e passei a me concentrar
nisso. Quando finalmente voltei à realidade, já tinha me perdido no tempo e as
estrelas estavam me olhando. Acabei deixando o papel cair ao mar, peguei-o de
volta, inteiro molhado e guardei. Cuidei dele, criei explicações para aquele
pedaço branco, tentando me convencer. Passado alguns meses o vi de novo perdido
entre tantos outros, uns com apenas meias palavras, outros com sonhos decaídos
e mais alguns iguais a ele. Juntei todos, estava chovendo, e joguei-os no mar.
Afundaram rápido, foram levados e deixaram poucos vestígios.