Vontade de escorregar com o rosto arrastando no chão,
sentir pedras e pedaços de outras coisas entrando em minha pele, se misturando
com sangue. Dor, cicatrizes, tristeza, deformidade. Quero não ter ajuda e
deitar olhando para o sol. Tudo pulsando, grudando, empapando. Preciso entender
o ritmo, o tempo de cada microscópica parte do meu corpo. Muitas vezes falta
consciência e discernimento. Os extremos trazem isso e eu quero. Estive
refletindo sobre muitas coisas, mas acabei parando por aí, isso de pensar em
tudo e fazer o nada é de praxe. Desejo o que todos evitam, escondem, tem medo.
Depois de algumas pessoas passando vem a habitual chuva vespertina. Alguns não
a esperavam e correm desesperadamente, afinal se molhar deve ser muito grave
nesse horário. Fechei os olhos e outros sentidos se aguçaram. Gotas pesadas,
provavelmente ácidas, vão ao meu encontro. Deixei, porque ainda precisava ficar
algumas horas estendida, tentando lavar meus pensamentos repetidos.
Como eu queria que aquele fragmento urgente que eu
criei chegasse a você. O mundo podia conspirar e mandar qualquer sinal crível
que não caísse na sua mania de aleatoriedade. Tudo bem, ele está indo embora
agora junto a outros menos importantes. Lembro que nesses últimos dias estive
criando um número muito grande de histórias mal desenvolvidas, que acabam no
começo por falta de algo indescritível. Essa é minha grande dificuldade, levar
até o fim. Os ciclos estão acabando e ainda estou travada em alguns que
pensando bem, só vou saber o contorno quando terminar. Às vezes é um círculo e
eu só estou com medo de cair no final e trombar com a verdade desconhecida. São
tantas críticas destrutivas e pressões que eu perco a vontade de continuar, a
emoção de sonhar com algo alternativo não se encaixa ao molde. Sinto uma
multidão me empurrando e me rasgando para que eu caiba lá, naquela coisa
minúscula. Mesmo tendo certeza que não sou a única, estou sozinha, pequena,
desprotegida tentando encontrar dentro de mim uma pontinha que eu acredite.
Só mais alguns minutos. A importância que eu tenho são
os outros que decidem. Comparações. Todas as sugestões de como eu deveria ser
me cansam. Conseguir escolher o que eu quero é um objetivo, as metas são
variadas e abundantes. Parece que é muito difícil acreditar em mim, confiar que
mesmo sem saber o porquê, eu sei que vai dar certo. Depois de tantas palavras
alheias minha crença em mim mesma se enfraquece. Não é por isso que estou aqui.
Abro os olhos e de novo já é noite. O que aconteceu me deixa em dúvida se eu
fantasiei demais, tornei as coisas gigantes. Ou se foi realmente isso e o que
eu queria está passando entre meus dedos levando partes de mim. Um gato cinza
com olhos amarelos me observa de perto. Esclareci alguns pontos e compliquei
outros. Ouvi dizer que o ápice está no meio, o fim não é tão importante. Hora
de sair dali, levantei com minhas novas cicatrizes.