Foi um dia estranho, estava perto e decidi parar pra
ver você. Tinha certeza de onde estava, mas parei em algumas covas
desconhecidas por falta de confiança. Lembrava exatamente o caminho de ida e o
de volta em que eu abraçava um amigo hoje desconhecido. Parei e olhei sua foto
sorrindo, muita vontade de cair em lágrimas, não por sermos íntimas ou qualquer
outra coisa, mas porque você sabia sua direção. Tudo o que eu não tenho.
Conversei coisas sem resposta por um tempo. Vi aquele acúmulo de insetos onde
você estava deitada, parecia tão errado. Fiquei olhando sem pensar em nada e
perdi a noção do tempo. Ia começar a chover.
Todos por aí vivendo, até você, e eu aqui preocupada
em inventar mais maneiras de morrer. Estou sumindo aos poucos nos lugares em
que eu queria ficar para sempre. Não consigo decidir se alguém tem culpa, mas é
o que ocorre inevitavelmente. Este filhote de gato cinza me observando, ele tem
olhos azuis e parou na frente da cripta de mesma cor. Eu me aproximo, ele se
afasta, ele chega perto, eu hesito. Paramos no olhar um do outro, uma gota
pesada cai entre nós e eu lembro que é hora de ir. Repito o caminho de ida
olhando de soslaio para trás.
Mesmo morando anos em São Paulo, esqueci o
guarda-chuva. Só restou esse lenço antigo para me proteger. Descubro o ponto em
que deveria pegar o ônibus e ele não demora a passar. Tantos lugares a que eu
deveria ir. Minha casa parece bem mais aconchegante e segura. Encostei-me à
janela, senti o cheiro estranho daquele senhor a minha frente e fui olhando o
caminho. Sempre gostei de observar como o mundo se comporta quando estou em
movimento. Voltei a caminhar, o céu já estava azul. Pensei que ainda podia
estar chovendo, é tão bom às vezes. Ou é apenas mania de querer o que já foi.