quinta-feira, 26 de abril de 2012

Minas Gerais

Ela observava seu reflexo na janela riscada do ônibus. Era extremamente libertador não ter planejado, mais ainda não ter avisado ninguém. Sempre se perguntava como seria entrar em uma rodoviária e ir aonde a atendente escolher. Fechou os olhos cansados da fuga com um meio sorriso nos lábios. Acordou assustada com o atrito na rua de pedrinhas da cidade, como era boa a falta de asfalto. Desceu e sentiu a brisa limpa acariciar suas bochechas. Muitas pombas se reunindo perto de um dos bancos de cimento espalhados pela rodoviária a céu aberto, um cachorro bege com manchas pretas sentou e fitou a estrangeira. Vai chamar Jhonny, ela pensou. Pessoas com o rosto envelhecido, mas tranquilo, usando chinelos, bermudas verde exército ou vestidos de malha estampados. Em volta ipês amarelos, montanhas, casas baixas e antigas, com eiras e beiras. Um horizonte.
No segundo dia, se viu num ponto alto da montanha, só ela e o Jhonny. Como aqueles amontoados de telhas terracota eram pequenos, como as nuvens se moviam rápido no azul, como os cumes distantes estavam cinza e cabiam em uma mão, como essa fatia de planeta era minúscula, como ela se sentia insignificante. Olhou para seu parceiro e achou certo o pranto, mas nenhuma lágrima quis transbordar. Ele latiu. Ela deitou sentindo o sol esquentar as pernas fatigadas da subida. Tentou se esvair de pensamentos, descalçou os tênis, percebeu os afloramentos daquele terreno rochoso, encarou a claridade sem tirar os óculos escuros e se encaixou no solo desigual. Talvez fosse ali. As pálpebras começaram a pesar até que caíram num escuro azulado, só quebrado pelos vestígios de luz do sol. Despertou assustada com uma lambida no braço - Ai Jhonny, sai daqui! Ah, você quer sair mesmo - ele respondeu começando o caminho de volta.
Passou por todas as hipóteses que conseguiu imaginar para se justificar. Sem vontade de voltar, ficava repassando se existe mesmo tanta coisa contra. Em quase tudo se dá um jeito, menos nas pessoas. Era a última noite lá, a lua era bem pequena, branca e rodeada de um número exorbitante de estrelas. Já tinha se acostumado com a cachaça com mel e limão, com as senhoras de idade a cumprimentando pela manhã, com as folhas caindo no seu cabelo que esvoaçava no vento forte noturno, com as pessoas usando chapéus finos e claros, com o cigarro de palha apagando sozinho, todas essas coisinhas vão dar saudade. Fim de tarde, céu rosa alaranjado, dia arrastado. Até aquele cachorro sarnento vai fazer falta. Escreveu seu nome no banco de cimento com o chaveiro de Nova Iorque que uma amiga deu. Ela encostou-se à janela bem mais limpa que a última vez e dormiu.