quarta-feira, 26 de junho de 2013

Emaranhado

Maria era repórter, especializada em assuntos sobrenaturais. Já desmascarou incontáveis armações, mas tinha medo das que ainda não tinham uma explicação certa. Todo ano, em uma cidadezinha do Ceará, aparecia o emaranhado. Ninguém sabia como, quando ou o porquê. Tinham pessoas que montavam guarda no local o ano inteiro para ver o emaranhado surgir. Eles falam que só veem uma luz forte e amarelada, tão forte que não conseguem manter os olhos abertos, quando voltam à visão normal, ele já está lá.
É a primeira vez que Maria vai até o local, as outras cidades do Brasil que se dizem mais civilizadas nunca acreditaram no que acontecia lá. O emaranhado aparecia e sumia depois de uma semana e aparentemente nada mudava na cidadezinha. Ela chegou ao local, realmente era algo meio estranho, em todos esses anos de trabalho, nunca tinha visto algo tão disforme, dava um mal estar. Aquela sensação de lugar errado na hora errada, como se algo muito ruim fosse acontecer nos próximos segundos. O emaranhado era um buraco no chão, mais ou menos do tamanho que os homens fazem para colocar um caixão. É impossível saber a profundidade, uma gosma amarela borbulha com vários objetos, pedaços de natureza. Ela conseguiu identificar feno e mais nada. Parecia o vômito de algum monstro dos animes. No momento que fitou o emaranhado, desistiu de entrar nele. Era uma coisa que poucos moradores da região faziam, tinha uma escada dentro da gosma, mas ninguém nunca passou do sexto degrau.
Começou a reportagem e pela primeira vez os telespectadores estavam vendo algo mais bizarro e assustador que as mudanças de penteado da repórter. Uma senhora muito baixinha e gorda se habilitou a entrar no emaranhado. Ela falava muito rápido e com um sotaque muito estranho, era muito complicado distinguir qualquer palavra, mas a população da cidade parecia entender.
A senhora começou a descer os degraus, Maria teve uma ânsia de vômito contida. Mergulhou a cabeça inteira naquela gosma nojenta, todos ficaram exatamente seis segundos sem ver nada, até que a senhorinha saiu muito rápido e dando uma risada estranha. Encostou a mão melecada na repórter que agora não conseguiu conter o nojo, vomitou ao vivo na TV a cabo. A senhora pegou o microfone e riu, a risada mais macabra já vista. Parecia que ela estava genuinamente feliz e despreocupada, isso era de uma estranheza sem precedentes para os espectadores. Só falou que não teve coragem de ir até o fim e que sentiu coisas pontudas e moles em seus pés, não teve a segurança para pisar e voltou as pressas para o marido. A voz dela era muito clara, todos entenderam. Mais uma vez deu aquela risada infantil e límpida. Voltou à multidão toda melecada de amarelo com as roupas grudando naquele corpo nada escultural e sumiu.
Maria, ainda no chão, finalizou o programa atordoada e deixou o microfone jogado. Começou a andar meio errante pela cidade, uma criança com a mãe olhou fixamente para ela, gritou e apertou tanto a mão da mãe que Maria teve certeza que dois ou três ossos da mão dela haviam sido deslocados. A mãe também olhou diretamente para a repórter descabelada e no mesmo momento pegou a filha no colo e correu assustada sem olhar para trás. A visão da repórter embaçou até que ela desmaiou, tudo se tornou preto. Ela só lembra de pequenos flashs quando ela vomitava e não conseguia distinguir ninguém. Acordou uma semana depois, já embaixo da terra que uma vez por ano se tornaria amarela e ela poderia sair, buscar explicações, tentar entender. Por enquanto ela  dormia.