Maria era repórter, especializada em assuntos sobrenaturais. Já
desmascarou incontáveis armações, mas tinha medo das que ainda não tinham uma
explicação certa. Todo ano, em uma cidadezinha do Ceará, aparecia o emaranhado.
Ninguém sabia como, quando ou o porquê. Tinham pessoas que montavam guarda no
local o ano inteiro para ver o emaranhado surgir. Eles falam que só veem uma
luz forte e amarelada, tão forte que não conseguem manter os olhos abertos,
quando voltam à visão normal, ele já está lá.
É a primeira vez que Maria vai até o local, as outras cidades do
Brasil que se dizem mais civilizadas nunca acreditaram no que acontecia lá. O
emaranhado aparecia e sumia depois de uma semana e aparentemente nada mudava na
cidadezinha. Ela chegou ao local, realmente era algo meio estranho, em todos
esses anos de trabalho, nunca tinha visto algo tão disforme, dava um mal estar.
Aquela sensação de lugar errado na hora errada, como se algo muito ruim fosse
acontecer nos próximos segundos. O emaranhado era um buraco no chão, mais
ou menos do tamanho que os homens fazem para colocar um caixão. É impossível
saber a profundidade, uma gosma amarela borbulha com vários objetos, pedaços de
natureza. Ela conseguiu identificar feno e mais nada. Parecia o vômito de algum
monstro dos animes. No momento que fitou o emaranhado, desistiu de entrar nele.
Era uma coisa que poucos moradores da região faziam, tinha uma escada dentro da
gosma, mas ninguém nunca passou do sexto degrau.
A senhora começou a descer os degraus, Maria teve uma ânsia de
vômito contida. Mergulhou a cabeça inteira naquela gosma nojenta, todos ficaram
exatamente seis segundos sem ver nada, até que a senhorinha saiu muito rápido e
dando uma risada estranha. Encostou a mão melecada na repórter que agora não
conseguiu conter o nojo, vomitou ao vivo na TV a cabo. A senhora pegou o
microfone e riu, a risada mais macabra já vista. Parecia que ela estava
genuinamente feliz e despreocupada, isso era de uma estranheza sem precedentes
para os espectadores. Só falou que não teve coragem de ir até o fim e que
sentiu coisas pontudas e moles em seus pés, não teve a segurança para pisar e
voltou as pressas para o marido. A voz dela era muito clara, todos entenderam.
Mais uma vez deu aquela risada infantil e límpida. Voltou à multidão toda
melecada de amarelo com as roupas grudando naquele corpo nada escultural e
sumiu.
Maria, ainda no chão, finalizou o programa atordoada e deixou o
microfone jogado. Começou a andar meio errante pela cidade, uma criança com a
mãe olhou fixamente para ela, gritou e apertou tanto a mão da mãe que Maria
teve certeza que dois ou três ossos da mão dela haviam sido deslocados. A mãe
também olhou diretamente para a repórter descabelada e no mesmo momento pegou a
filha no colo e correu assustada sem olhar para trás. A visão da repórter
embaçou até que ela desmaiou, tudo se tornou preto. Ela só lembra de pequenos
flashs quando ela vomitava e não conseguia distinguir ninguém. Acordou uma
semana depois, já embaixo da terra que uma vez por ano se tornaria amarela e
ela poderia sair, buscar explicações, tentar entender. Por enquanto ela
dormia.