Ele falava que o apartamento era
frio, mesmo com os livros no aparador e o edredom com uma estampa tão exagerada
que só a mãe de alguém poderia ter comprado. Ela passou no mercado e comprou um
girassol, voltou toda saltitante no caminho que era muito curto para ir de
ônibus e muito longo para ir a pé. Chegou. Ele estava concentrado no computador
e com fones de ouvido, trabalhando. Guardou as compras, tomou banho e foi se
deitar.
- Boa noite, meu bem.
- Boa noite.
- Trabalhando?
- É, acho que vai até bem mais
tarde hoje.
- Tá, vou dormir.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. Tudo bem.
Levantou no outro dia de manhã e
ele estava dormindo no sofá de novo. Foi trabalhar se perguntando como ele não
percebia o jeito que ela se sentia, fazia meses que eles nem ao menos
conversavam. Os amigos do trabalho se perguntavam o porquê dela não esclarecer
logo as coisas, ela sempre respondia que ele a conhecia e estava desatento.
Eles não concordavam. Mais alguns dias se passaram do mesmo jeito, ela
reclamava pra todos menos para quem deveria. Ele não queria fazer parte do
clima pesado que ela trazia toda noite e já tinha tentado perguntar várias vezes.
Não lembravam por onde essa distância toda entrou. Devem ter esquecido a janela
aberta quando chovia.
Uma semana depois, ela olhou a
flor, parecia que tinha sido enrolada em um jornal desde que chegou. Estourou:
- Sempre tento agradar você e não
recebo nem um sorrisinho em troca.
- O que foi agora?
- Você não percebeu?
Aponta para a mesa enquanto
mantém os olhos lacrimejantes fixos nos dele.
- É, meu bem, girassol não vinga em tempo nublado.