terça-feira, 11 de junho de 2013

Girassol

Ele falava que o apartamento era frio, mesmo com os livros no aparador e o edredom com uma estampa tão exagerada que só a mãe de alguém poderia ter comprado. Ela passou no mercado e comprou um girassol, voltou toda saltitante no caminho que era muito curto para ir de ônibus e muito longo para ir a pé. Chegou. Ele estava concentrado no computador e com fones de ouvido, trabalhando. Guardou as compras, tomou banho e foi se deitar.
- Boa noite, meu bem.
- Boa noite.
- Trabalhando?
- É, acho que vai até bem mais tarde hoje.
- Tá, vou dormir.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. Tudo bem.
Levantou no outro dia de manhã e ele estava dormindo no sofá de novo. Foi trabalhar se perguntando como ele não percebia o jeito que ela se sentia, fazia meses que eles nem ao menos conversavam. Os amigos do trabalho se perguntavam o porquê dela não esclarecer logo as coisas, ela sempre respondia que ele a conhecia e estava desatento. Eles não concordavam. Mais alguns dias se passaram do mesmo jeito, ela reclamava pra todos menos para quem deveria. Ele não queria fazer parte do clima pesado que ela trazia toda noite e já tinha tentado perguntar várias vezes. Não lembravam por onde essa distância toda entrou. Devem ter esquecido a janela aberta quando chovia.
Uma semana depois, ela olhou a flor, parecia que tinha sido enrolada em um jornal desde que chegou. Estourou:
- Sempre tento agradar você e não recebo nem um sorrisinho em troca.
- O que foi agora?
- Você não percebeu?
Aponta para a mesa enquanto mantém os olhos lacrimejantes fixos nos dele.
- É, meu bem, girassol não vinga em tempo nublado.