Acompanhar uma amiga,
aproveitar e passar na loja de doces me parece uma boa ideia. Preparei uma
bolsa pequena só com dinheiro e o molho de chaves inseparável. Só de olhar a
reforma do lugar que tem mais opções de guloseimas e o mais importante, agora
tem café, me deixa feliz. Entrei, olhei e tentei esconder o choque. Estava lá
um personagem da rua, que como uma vez me disseram, ficou desse jeito porque
era drag queen e queria fazer plásticas no rosto mas não tinha dinheiro. Então
injetou em si mesmo algumas substâncias que o deixaram deformado, não chega a
ser desfigurado, isso é muito forte para ele. Hoje anda pelas esquinas com
maquiagem de palhaço, todo aquele pó e tinta só deixam tudo mais triste, não é
sempre que podemos nos esconder e raramente devemos.
Passado aqueles segundos estranhos de silêncio,
adentrei a loja e enquanto passava por ele tentei olhar de soslaio o que estava
comprando, não consegui. Tentei não reparar, falhei de novo. Eu me arrisco a
dizer que ele é uma figura famosa, difícil algum frequentador daqui não o ter
notado e a curiosidade de muitos gera histórias, um telefone sem fio que
alcança muitas gerações. Assim como aquele senhor que anda sempre de pijama
fazendo conjunto com outros acessórios. Peguei o chocolate quase diário e fui
ao caixa onde estava uma mulher sem cabelos e um lenço verde, o olho dela era
azul. Pensei que tinha passado a frente dela na fila, mas não. Mesmo assim
pareceu que ela olhou com um ar de desaprovação.
Continuei o caminho até o metrô tentando definir o que
eu pensava exatamente sobre ele. Ficava chocada, mas não conseguia evitar,
tentava esconder. Outro dia estava resmungando da vida, com ideias suicidas
iguais da adolescência, então vi uma cena. Um homem sem as pernas e sem os
braços andando na principal Avenida de São Paulo em uma cadeira de rodas, ele
não dependia de ninguém. Correndo ao lado dele estava uma criança, sorrindo e
tentando acompanhar o ritmo dele que acelerava para brincar, estava de terno e
gravata, sorria. Meu olho transbordou, uma lágrima caiu e percorreu todo meu
rosto. Agora, levantar a cabeça e não esquecer que você só consegue o que se
dispõe a fazer me parece uma ótima ideia.
Despedi da minha amiga e comecei o caminho de volta
para casa, cruzei com ele de novo, não consegui esconder o susto. Quando
passou, só pensei, todo mundo precisa de um doce às vezes, queria ter visto o
que ele comprou, mas agora é tarde. Perdida nessas ideias, eu escuto uma
conversa alheia, a moça de blusa polo listrada azul e vermelha estava contando
a mesma historia que uma vez ouvi, de como ele ficou assim. Fiquei na dúvida de
qual fonte as pessoas ficam sabendo, será que foi isso mesmo que aconteceu.
Queria ter falado com ele, mas a sensação de insegurança veio só de imaginar a
cena, ele me assusta e me sinto mal por isso, mas não consigo evitar,
mesmo querendo saber mais. Quando me concentro no caminho recebo um olhar
desaprovador, era a mulher de lenço verde censurando meus pensamentos.