quinta-feira, 7 de abril de 2011

Chocolate

Acompanhar uma amiga, aproveitar e passar na loja de doces me parece uma boa ideia. Preparei uma bolsa pequena só com dinheiro e o molho de chaves inseparável. Só de olhar a reforma do lugar que tem mais opções de guloseimas e o mais importante, agora tem café, me deixa feliz. Entrei, olhei e tentei esconder o choque. Estava lá um personagem da rua, que como uma vez me disseram, ficou desse jeito porque era drag queen e queria fazer plásticas no rosto mas não tinha dinheiro. Então injetou em si mesmo algumas substâncias que o deixaram deformado, não chega a ser desfigurado, isso é muito forte para ele. Hoje anda pelas esquinas com maquiagem de palhaço, todo aquele pó e tinta só deixam tudo mais triste, não é sempre que podemos nos esconder e raramente devemos.
Passado aqueles segundos estranhos de silêncio, adentrei a loja e enquanto passava por ele tentei olhar de soslaio o que estava comprando, não consegui. Tentei não reparar, falhei de novo. Eu me arrisco a dizer que ele é uma figura famosa, difícil algum frequentador daqui não o ter notado e a curiosidade de muitos gera histórias, um telefone sem fio que alcança muitas gerações. Assim como aquele senhor que anda sempre de pijama fazendo conjunto com outros acessórios. Peguei o chocolate quase diário e fui ao caixa onde estava uma mulher sem cabelos e um lenço verde, o olho dela era azul. Pensei que tinha passado a frente dela na fila, mas não. Mesmo assim pareceu que ela olhou com um ar de desaprovação.
Continuei o caminho até o metrô tentando definir o que eu pensava exatamente sobre ele. Ficava chocada, mas não conseguia evitar, tentava esconder. Outro dia estava resmungando da vida, com ideias suicidas iguais da adolescência, então vi uma cena. Um homem sem as pernas e sem os braços andando na principal Avenida de São Paulo em uma cadeira de rodas, ele não dependia de ninguém. Correndo ao lado dele estava uma criança, sorrindo e tentando acompanhar o ritmo dele que acelerava para brincar, estava de terno e gravata, sorria. Meu olho transbordou, uma lágrima caiu e percorreu todo meu rosto. Agora, levantar a cabeça e não esquecer que você só consegue o que se dispõe a fazer me parece uma ótima ideia.
Despedi da minha amiga e comecei o caminho de volta para casa, cruzei com ele de novo, não consegui esconder o susto. Quando passou, só pensei, todo mundo precisa de um doce às vezes, queria ter visto o que ele comprou, mas agora é tarde. Perdida nessas ideias, eu escuto uma conversa alheia, a moça de blusa polo listrada azul e vermelha estava contando a mesma historia que uma vez ouvi, de como ele ficou assim. Fiquei na dúvida de qual fonte as pessoas ficam sabendo, será que foi isso mesmo que aconteceu. Queria ter falado com ele, mas a sensação de insegurança veio só de imaginar a cena, ele me assusta e  me sinto mal por isso, mas não consigo evitar, mesmo querendo saber mais. Quando me concentro no caminho recebo um olhar desaprovador, era a mulher de lenço verde censurando meus pensamentos.