Tropecei, caí em queda livre, minha visão era entorpecida pelas
faíscas de luz. Agora não tinha o que fazer, o dia estava determinado, pelo
menos cair é algum movimento, melhor que ficar parado. Acabei ficando tão
confusa, não percebia o que estava acontecendo, devo ter apertado meu botão de
piloto automático quando vi aquela pedra.
Andando do lado errado da calçada, notei, mas não falei nada, estava difícil me
comunicar. Pensei naquela conversa de que as memórias travam as pessoas, você
fica aprisionado a ela e não segue em frente, são sujeiras grudadas no cérebro.
Discordo. Quando for o tempo certo, a memória vai ser absorvida e se tornará
parte das inúmeras células que compõem seu corpo, trazendo mais força e
confiança, mas só no momento que estiver cicatrizada. O problema não é a pedra,
o que faz você tropeçar é você, a falta de querer ver o que está no caminho que
de um jeito ou de outro vai fazer parte de você. Passo otimismo para os outros
e não guardo nenhum.
Não
sei o que é pior, a desvalorização ou a esperança da valorização. Os dois
quando se encontram é igual Mentos com Coca-Cola, explosão na certa. Tentando
ignorar danço ao som dos fones de ouvido, aquela música me alegra,
discretamente passo para o lado certo. Que vontade de ser criança que deu, vou
me esconder atrás da escada, espero o tempo de mãe preparar uma vitamina de
mamão com banana e apareço, junto comigo vem àquela risada tão natural e
inocente, há tempos não ouvia.
Preciso de uma conclusão, mas acho que aquele lanche de frango com mussarela de
búfala foi demais para mim. Continuo caindo, com as feridas abertas ardendo à
medida que o vento bate com vestígios de poeira. Estou vivendo em volta de
muito pó, está me fazendo mal. Quero ir para onde a grama é verde e o ar é
limpo. Finalmente, consigo ver, fecho os olhos e me esforço ao máximo para não
esperar mais nada, sei que chegou ao fim e quando ele chega tudo dá certo.