Cansada, a dor nas costas me faz deitar no taco de
madeira frio e duro. Tento me acertar. Penso em dormir, mas saber que vou
acordar para o dia seguinte me desanima, procuro um porto. Como eu queria você
aqui comigo tomando chá, eu faria uma lasanha de berinjela. Esqueci que
berinjela não lhe agrada. Você sai e só volta bem tarde, até eu cansar de
esperar e perder o ânimo até de me preparar para dormir, fecho os olhos
desajeitada, tarde demais. A ficção se aplica.
O despertador começa a gritar cedo, quero mais dez
minutos. Olho o espelho, acho que não fiz isso ontem, só agora vejo como minha
aparência está ruim. Não durmo, não como direito, não várias coisas. Passo
maquiagem e chego atrasada. Tento esboçar um sorriso desejando bom dia, mas sem
acreditar que esse cumprimento proceda. Os ponteiros do relógio se arrastam até
que eu volto para o ponto de ônibus. Invento conversa com uma moça simpática,
fico preocupada pelas pessoas com asma que fumam. Esse foi o ponto alto do dia.
Volto para o carrossel, a essa altura meu joelho
também dói, não quero fazer cirurgia. Luzes e cores para todos os lados, mas
elas não estão comigo, estão girando e eu não consigo alcança-las. Quero soltar
minha âncora, mas continuo sem ter onde descer e descansar. Ouvi uma conversa
de acordar mais cedo para meditar, parece uma boa, faz tempo que eu não acho
espaço para organizar minhas conexões, nem sei mais para onde estou indo.
Parece que é para nenhum lugar, vejo os mesmos movimentos martelando e me
levando para os repetidos que já entediaram, parece que meu cérebro não
trabalha mais.
Como será que a centopeia entrou no quarto? Tento me
distrair com isso, mas não persiste por muito, voltei para o estado
misantrópico habitual. O problema tem que ser eu que procuro pelo em ovo e
acabo encontrando. Só pergunto quem os colocou lá. Agora ele incomoda e me
destrói aos poucos. Não tenho mais animo para tentar resolver, pareço sozinha,
conversando só com o quadro do John Lennon na parede da sala. Preciso de ajuda
rápido, mas não a que quer resolver tudo em uma tacada, é a presente e
paciente, me mostrando aos poucos acontecimentos diferentes.