Ela, com 50 e poucos anos, cabelos presos
desgrenhadamente, pele enrugada e seca, daquelas que queimou ao sol sem
proteção. Era troncuda, forte, quase gorda. Olhou com raiva para minha amiga.
- Quem você pensa que é pra falar assim comigo? Por
acaso sou sua irmã? Sua mãe? – falava com um sotaque de quem morou a vida
inteira em São Paulo. Voltou ao seu lugar no ônibus, pensei que a velha estava
louca, falar assim com a pessoa mais amorosa e educada que já cruzou comigo.
- Fica quieta, sua prostituta. Ganhou dois prêmios
Nobel de Literatura e foi vender o livro na Europa – uma agressividade
crescente ia se formando em sua voz. Ao mesmo tempo eu achava que a situação
ficava mais incabível e engraçada.
Minha amiga, muda e imóvel, foi chamada pelo motorista
para conversar, que alívio. A tensão foi quebrada por pouco tempo, a possível
ex-mulher de algum escritor bukowskiano começou a empurrar o carrinho, parecia
de feira ou daqueles que carregam malas, em direção a ela. Todos vigiaram de
perto.
- Combinou de encontrar com o namorado e ele não foi?
Quem você pensa que é, sua prostituta? Fica quieta!
Nosso ponto, agradecemos a carona e saímos
apressadamente. Pegamos o primeiro ônibus que passou. Alguém pede licença,
outro tosse, tudo era suspeito até trancar a porta. Coisas familiares.
Finalmente está tudo bem, já podemos contar uma nova história e rir.